Fim do vigésimo primeiro e começo do vigésimo segundo dia: Paris e o trem para Veneza

São 3h30 do dia 17/1, quinta-feira, e eu infalivelmente acordei. Pudera, fomos dormir era mais ou menos 22h30, ontem, em nosso compartimento dormitório no trem EN (European Night) 221, Paris – Venezia (Santa Lucia). A Paloma continua a dormir pesadamente no cama de cima, que ela escolheu sem me dar muita opção. O trem saiu ontem de Paris (Gare de Lyon) às 20h07, com oito minutos de atraso em relação à hora de partida prevista: 19h59. Por que se escolhem horas de partida como 19h59 (em vez de, por exemplo, 20h) é algo que tenho muita dificuldade em entender. Estamos rodando, portanto, há cerca de sete horas e meia. A viagem total dura 13 horas e meia, por aí. Isso quer dizer que ainda temos cerca de seis horas para curtir a experiência. Como já disse, a Paloma nunca havia andado em compartimento dormitório de um “wagon lit” (vagão leito). (Quando eu trabalhava na UNICAMP, no que me parece ter sido uma outra vida [uma encarnação anterior?], da qual eu, de vez em quando, tenho vagas lembranças, a gente lidava com uma agência de turismo chamada Wagon-Lit, com sede em São Paulo, para fazer reservas de vôos internacionais. Nunca mais vi referência a ela).

Não sei bem se narro o dia de ontem em ordem cronológica normal ou se o faço de trás para frente, já que comecei falando de agora e da partida do trem, ontem à noite. Vou tentar começar em ordem normal e chegar até ontem à noite. Acho que fica mais fácil de entender.

Parei o post anterior quando estávamos para chegar a Paris. Chegamos direitinho, com meia hora de atraso (já mencionado no post anterior). Não se fazem mais estradas de ferro como a antiga Companhia Paulista, cujos trens, ao passar, serviam para as pessoas acertarem os seus relogiões de parede em casa…

A Gare de Lyon é um labirinto, ainda mais porque é quase emendada, nos níveis subterrâneos, com a Gare de Bercy e a Gare de Austerlitz, para não mencionar algumas estações de metrô e pontos finais de linhas de ônibus.

Nossa primeira providência foi verificar a existência de um Guarda-Bagagem, desses automáticos, em que você põe umas moedas e deixa suas tralhas lá — no caso, nossas duas mochilas. Perguntei à atendente de um guichê de informações e ela nos apontou a direção. Começamos o que pareceu uma interminável caminhada mal-orientada por placas de indicação. Estávamos no andar de baixo em relação ao andar em que estavam as plataformas dos trens. Mas havia mais andares abaixo. De vez em quando encontrávamos uma indicação assim ↓ (flecha virada para baixo). Isso queria dizer que era para continuarmos em frente ou que era para descermos para o andar de baixo? Para mim é a segunda opção. Se fosse para continuar em frente, eu teria preferido usar a indicação ↑ (flecha para cima). Mas no caso eu estaria errado. Mesmo assim, finalmente achamos o serviço de “Consigne” (mesma raiz de “Consignação”) que procurávamos. O preço era 5,50 Euros por um espaço que acomodaria nossas duas mochilas, segundo a moça do guichê de atendimento. A gente mesmo pagaria, com moedas, ao fechar o espaço. (Deve haver um termo mais preciso  em Português do que apenas o genérico “espaço”, como é o caso de “locker”, em Inglês, mas não consigo me lembrar dele). Para entrar na área dos ditos espaços, a bagagem teve de ser escaneada em um aparelho como aqueles de aeroporto e tivemos de tirar tudo de metal que tínhamos nos bolsos, celulares, eletrônicos em geral, etc. Uma vez dentro, finalmente encontramos um espaço vazio que nos pareceu conveniente, no alto, número 43E. Escolhi o 43 por ser o ano de meu nascimento e o E por ser a inicial do meu primeiro nome… Assim seria mais fácil lembrar… 🙂 Lemos as instruções, colocamos as mochilas lá, fechamos a porta, e colocamos no local indicado os 5,50 Euros. A porta se trancou automaticamente e o sistema emitiu um bilhete que nos permitiria abrir a porta ao voltarmos. Os 5,50 Euros valeriam por 24h. Passado esse tempo, teríamos de pagar outro tanto para retirar as mochilas.

Bem, problema número um resolvido.

Segundo problema, localizar um banheiro. Achamos um, longe dali, e, para entrar, tínhamos de pagar 0,50 Euros por cabeça. Pagamos. Segundo problema resolvido.

Terceiro problema (que se desdobrou em vários subproblemas): achar um mapa da cidade e partir rumo à Torre Eiffel. Já passava das 11h15.

A atendente de um outro guichê de informações nos deu um mapa detalhado do centro expandido de Paris, e vimos que estávamos bem longe da torre. A Gare de Lyon fica a leste do miolo circunscrito em três lados (Norte, Leste e Oeste) pelo Sena, já fora do miolo, e a Tour Eiffel a oeste, dentro do miolo. Em ambos os casos as construções estão basicamente do lado do Sena. Ir a pé, com nossas limitações de tempo, não era viável, embora fosse meu desejo: envolvia atravessar todo o miolo da cidade, algo que não se faz, andando, em menos de duas horas. Alternativas: taxi, metrô ou ônibus. A Paloma optou pelo metrô. Nosso mapa tinha um esquema das linhas do metrô. A Paloma adora esses esquemas: para ela aquilo é um quebra-cabeça que a diverte tanto quando os joguinhos de computador de que ela gosta tanto… Ela logo descobriu que a Linha 6, que passava mais ou menos perto da Gare de Lyon, nos levaria até lá, sem baldeação. Problema: onde havia, na vizinhança da Gare, uma estação do metrô em que essa linha passa? Víamos uma indicação do metrô, mas nessa estação passava apenas a Linha 14…

Eu queria perguntar e a Paloma queria descobrir… E, como dizia o Fiori Gigliotti, “o tempo passava…”.

Finalmente resolvi (contra a vontade da Paloma) perguntar noutro guichê (ou seria o mesmo da mulher que me deu o mapa?) e ela nos disse, peremptoriamente, que a melhor opção seria pegar o Ônibus 63, destino Porte de Muette, cujo ponto final poderíamos encontrar andando reto até o fim da estação e virando à direita na rua. Deveríamos descer na parada Trocadero.

A Paloma ficou um pouco magoada por eu ter meio (?) unilateralmente resolvido ir de ônibus, argumentando que havíamos aberto (gostaria que fosse abrido) mão de nosso poder de escolha e decisão para seguir a decisão da mulher do guichê… Faire quoi? O problema tem semelhança com o problema pedagógico colocado pelas pedagogias não-diretivas: aprendizagem por descoberta ou aprendizagem baseada na instrução? Em princípio a aprendizagem por descoberta, outras coisas sendo iguais (et ceteris paribus), é preferível, não tenho dúvida. Mas ela, muitas vezes, exige mais tempo…

Enfim!

Fomos até o local indicado, havia um ônibus da Linha 63 parado (era ponto final da Linha, no outro extremo da Porte de Muette), e precisamos descobrir onde e como comprar os bilhetes. Perguntei para um senhor (ia dizer um velho, mas me dei conta de que ele devia ter mais ou menos a minha idade, por isso optei pela forma de referência usada, mais “nobilificante”). Achamos uma máquina de bilhetagem perto, que nos permitia comprar bilhetes para o metrô, para os trens metropolitanos e para os ônibus. Só que ela tinha uma interface meio estranha: uma tela que era operada através de um rolinho de alumínio (parecido com um mini-rolo de macarrão) que ficava abaixo dela e que permitia que a gente navegasse pelas opções dessa tela no plano vertical. Uma passagem individual, 1,70 Euros. Escolhemos duas: total, 3,40 Euros. Não tínhamos moedas suficientes (porque eu não quis trocar notas em moedas na Consigne, como a Paloma sugeriu… o ambiente mais uma vez ameaçava ficar tenso!). Paguei então com o Cartão de Crédito VISA do Itaú Personnalité. Tomamos o ônibus, sentamo-nos, abrimos nosso mapa, o ônibus logo saiu e fomos acompanhando o trajeto percorrido no mapa.

O ônibus saiu da Gare de Lyon, que fica na parte Leste do centro expandido, para trás do Sena (para quem está do lado do Sena em que ficam o Pantheon, a sede da Sorbonne, o Jardim de Luxemburgo, Saint Germain des Prés, l’Assemblée Nationale, Les Invalides, a Torre Eiffel, etc.). Ele logo passou para esse lado pela Ponte de Austerlitz e foi em frente, fazendo um trajeto típico de ônibus: nunca indo reto quando é possível dar uma voltinha e recolher mais passageiros… (“E o tempo passa!” Que sábio era o Fiori Gigliotti…). Passamos pelos lugares indicados e, quando estávamos vendo a torre de uma forma que parecia bem de perto, descemos.

Não era tão perto assim (“Eu falei que era melhor descer no Trocadero”, disse a Paloma…  E havia falado mesmo. Mas o Trocadero ficava de novo do outro lado do Sena… Por isso sugeri que descêssemos antes). Mas chegamos lá. Era mais de meio dia.

Chegou a hora da grande decepção do dia: os elevadores da torre não estavam operando, porque havia gelo no topo da torre. Havia perspectiva de que voltassem a funcionar?, perguntei. Não temos ideia, foi a resposta. Mas pode ser que abram mais tarde? Talvez sim, talvez não…

O que fazer? Enquanto discutíamos uma solução para o que fazer, fomos caminhando até a margem do Sena e ali vimos excursões de barco (Bâteau Mouche — ah, Rio de Janeiro… Em que ano foi que o Bâteau Mouche afundou nas águas da Baía da Guanabara?). Mas vimos também um “Bâteau-Bus”, um barco que operava como ônibus, percorrendo o Sena, dali da torre, até o Jardin des Plantes (a variedade de Jardim Botânico deles?), já pertinho da Gare de Lyon, pela lado da margem esquerda do rio, voltando pelo lado oposto, fazendo ao todo oito paradas: Tour Eiffel, Musée d’Orsay, Saint-Germain des Près, Notre Dame, Jardin des Plantes, na ida, e Hôtel de Ville, Louvre, e Champs-Elysées, do outro lado, na volta. Pareceu-nos legal: uniríamos o útil ao agradável, descendo no Louvre para ir às Galeries Lafayette, voltando e pegando o Bâteau-Bus de novo para voltar até a Torre Eiffel para checar se já estava aberta. Pagamos os 15 Euros por pessoa, com direito de entrar e sair quantas vezes quiséssemos durante um dia. Imaginamos até que, próximo das 18h, ainda poderíamos tomar o Bâteau-Bus para ir de volta para a Gare de Lyon, sem ter de pagar mais nada. (O serviço fechava às 19h).

O barco chegou dali uns 10 minutos (bonito barco, com os lados e a parte superior de plástico ou acrílico transparente). Entramos, e começamos a ficar preocupados. Ali era o ponto final/inicial e o barco demorou pelo menos uns 15 minutos mais para sair… (“E o tempo passa!”). Perguntei quanto tempo levaria para chegar à estação Louvre, nosso destino original, e o comandante disse uma hora…  😦  Diante disso, revisão de planos. Resolvemos fazer o percurso inteiro, para aproveitar bem os 30 Euros, voltar à torre, verificar se ela estava aberta, e, depois, em qualquer hipótese, decidir o que fazer…

O percurso foi lindo. Tiramos fotos maravilhosas de todo o centrinho margeando o Sena. Mas levou cerca de uma hora e meia ou mais.

Voltamos à torre. Ainda fechada. Como já passava de 14h30 e escureceria antes das 17h, resolvemos deixar a subida da torre para uma outra ocasião. Pegamos um taxi (agora sem objeções maiores) e rumamos para as Galeries Lafayette. Dez Euros a corrida, incluído um arredondamento de 10% à guisa de gorjeta, que em Francês se chama “pourboire” (literalmente, “para beber”). (Em Inglês, o termo mais nobre é “gratuity”, mas geralmente as pessoas comuns usam o termo “tip”).

[Voltando ao presente, me dou conta que esse raio de trem está parado há quase meia hora, não sei onde. De volta para o passado].

Nas galerias, tomamos um lanche (sopa, pão, vinho, suco de laranja) e a Paloma foi à luta. Eu resolvi ficar na seção de livraria, no sexto andar. Combinamos nos reencontrar lá em 90 minutos (ou seja, por volta das 16h30).

Olhei as várias estantes de livros, parei na área de Sciences Humaines, que ali parecia ser um termo genérico que incluía as diversas Ciências Sociais, a Psicologia, a Filosofia, a Teologia, o Oculto… Peguei para olhar (skim, browse) um livro de Jeffrey Rifkin e outro que era uma biografia de Carl Jung, sentei-me numa cadeira para fazê-lo e comecei a ler. Olhei o de Rifkin, achei coisas interessantes mas parei de olhar quando encontrei uma entrevista do autor com o ex-primeiro ministro Zapatero da Espanha, em que ambos concordavam com a tese de que a Espanha estava se tornando o segundo carro-chefe da Europa, atrás apenas da Alemanha. Uns poucos anos de perspectiva nos ajudam ver que essa tese era um erro colossal. Deixei o livro de lado e passei a folhear a biografia de Jung quando… fui acordado pela Paloma! Eu havia cochilado… Ela voltou cerca de meia hora antes do combinado. Não havia achado o que queria pelo preço que esperava: as “liquis”, como ela as chama, não estavam tão promissoras nas lojas da Lafayette como as da Harrod’s em Londres…

Mas ela havia visto uma H&M do lado… Fomos para lá. A loja estava horrivelmente quente para o gosto de um calorento usando camiseta, uma camisa meio grossa de manga comprida, uma jaqueta de nylon da Ping, presente da Microsoft, e um sobretudo… Por isso combinamos  que eu ficaria de fora, ali nas cercanias, e que nos encontraríamos em meia hora na porta. Dei uma rodadinha até perto de L’Opera, voltei, e na hora combinada a Paloma voltou, sem ter terminado de fazer suas compras. Na loja havia parte do que ela queria por um preço bom (roupas para as meninas, para o nenê da Mary Grace, etc.). Combinamos marcar novo encontro para dali mais vinte minutos. Quando voltei, ela apareceu, dizendo que só faltava pagar. Dali uns 5 minutos ela retornou para pedir o passaporte dela que estava em meu bolso, porque a caixa havia pedido o passaporte quando ela deu o Cartão de Crédito do HSBC para pagar… Foi a primeira (e única) vez que uma loja pediu passaporte para conferir o nome no Cartão de Crédito.

De lá a Paloma ainda quis ir para a GAP, no Boulevard des Capucines, perto dali, que havíamos visto no trajeto de taxi. Rumamos para lá — embora eu, mineiramente apressado que sou, já preferisse ir direto para a Gare de Lyon…

Mais uns 30 a 45 minutos na GAP e saímos (ali não pediram o passaporte dela) com uma segunda sacola cheia de compras…

Pegamos um taxi em direção à Gare de Lyon, e o motorista, um sujeito nervoso, que dava umas porradas na direção no tráfego infernal do centro de Paris às 18h e pouco, me pareceu usar um trajeto longo demais… Creio que fomos enganados. Ainda preciso verificar depois no mapa. [EC, 17/1/2013: O mapa mostra um possível caminho, que eu conhecia, que tem 2/3 da extensão do trajeto escolhido pelo motorista.] A tarifa ficou em 19 Euros e 20 centavos (“centîmes”). Pagamos. Não era hora de brigar com taxista parisiense.

Entramos no prédio. Parecia totalmente diferente da estação da qual havíamos saído às 11h. Como eu não havia visto nenhuma inscrição, placa ou sinal luminoso dizendo GARE DE LYON, perguntei a um lojista se ali era mesmo a Gare de Lyon. Ele respondeu “Bien sûre!!!” e me olhou assim com cara de quem estava me achando louco.

Começamos a investigar o lugar para tentar fazer sentido de onde estávamos. Afinal de contas, precisávamos achar a Consigne onde estavam nossas mochilas, e já passava das 18h45…

Finalmente a Paloma descobriu que a estação contém três halls (criativamente chamados de Hall 1, Hall 2 e Hall 3). Estávamos no Hall 1, o velho. Quem sabe havíamos chegado, às 10h30, no Hall 2 ou no Hall 3? Fomos procurar e, felizmente, descobrimos que havíamos chegado mesmo no Hall 2. Lá achamos a nossa rampa para o andar de baixo (Hall 3) e localizamos o caminho da Consigne. Na Consigne, encontramos nossas mochilas intocadas. Fantástica a tecnologia. Só colocamos o ticket no slot do conjunto de seis lockers e nossa porta 43E abriu maciamente (embora aquele slot controlasse seis portas (43 A a F). How do they do it?

Problema: caberia o conteúdo das duas sacolas de compras da Paloma dentro da mochila dela (que estava vazia), como ela havia previsto? Não coube. Ela se dispôs carregar uma sacola pelas próximas 30 horas, inclusive em Veneza, com o que não havia cabido (um dia isso ainda vai virar couberto). Cavalheiresticamente, eu não disse “I told you so” (ou “I hate to say I told you so, but I told you so”) e ainda lhe ofereci para tentar acomodar o excedente na minha mochila. Coube. (Deveria ser cabeu).

Em seguida fomos procurar a plataforma do nosso trem. Ainda faltavam uns 45 ou 50 minutos para a hora da partida e o número do trem nem aparecia nos monitores, mas estava perto (a lista de trens a partir chegava até 19h53 e o nosso partiria às 19h59 — não sei por que essa gente… acho que já disse isso atrás). Finalmente o nosso apareceu, mas apenas com a indicação de Hall 3. Perguntei num guichê de informações o que isso significava e a resposta foi que devíamos nos encaminhar para o Hall 3 e esperar lá. Descobrimos que o Hall 3 era apenas um enorme Hall de espera, onde, na realidade, já estávamos. Logo apareceu a indicação de que o nosso Hall seria o 2. Fomos para lá. Mais tarde ainda, a informação foi alterada para Hall 1, e, finalmente, por volta das 19h35, para Plataforma J, que felizmente ficava no Hall 1, onde já estávamos. (Descobrimos também que não havia Plataformas 1 a 4, nem Plataforma B, nem Plataforma G… Por quê?).

Fomos para a Plataforma J. Um caos. Um monte de italianos e turistas correndo desordenadamente para lá. Demos de cara com o trem: velho, terrivelmente velho, feio…  nada parecido com os modernos e lindos  TGVs ou RailJets. Nosso vagão dormitório era o de número 94. Quando o achamos, fomos informados pelo chefe do vagão que a porta estava “rota” (quebrada) e que teríamos de entrar pelo vagão 93… Foi o que fizemos. Conferiram nosso bilhete-reserva, entramos, e localizamos nosso compartimento.

Sinceramente, fiquei decepcionado. Tudo velho, num estilo ultrapassado, nada funcionando muito bem. Welcome to Italy away from Italy, pensei eu cá com os meus botões… Acho que até cheguei a dizer algo equivalente para a Paloma, que estava bastante entusiasmadinha, explorando as novidades… Para que ela não ficasse triste, procurei esconder meu desapontamento com a cabine dormitório, mas fui meio incompetente ao tentar fazer isso. Vi que ela começou a ficar triste porque eu não estava muito contente com o nosso trem. Conversamos um pouco sobre isso, acertamos os ponteiros, e ela voltou à sua exploração do  nosso espaço como se fosse uma criança numa loja de brinquedos que visitava pela primeira vez.

Na cabine ao lado, brasileiros: dois homens, um mais velho e outro mais moço, e uma mulher jovem. Sem especulações.

No nosso compartimento havia um sofá com três lugares, que virava uma cama de solteiro. As duas outras camas não estavam montadas e muito menos arrumadas. O aquecimento não estava funcionando nem no nosso compartimento nem no vizinho (e estava frio, creio que abaixo de zero). Chamamos o chefe do  vagão, ele disse que mais tarde voltaria para arrumar as camas e que iria dar uma olhada no problema do aquecimento. Sotaque Italiano. Com os vizinhos, falou em espanhol. Comigo, em Inglês. Não falava nem um dos dois bem — nem o Francês tampouco.

Dali a pouco o dito cujo voltou para verificar os bilhetes e, estranhamente, nos pediu os passaportes e disse que ficaria com eles até o dia seguinte (hoje) cedo. Perguntei a ele por que e ele respondeu que, como o trem iria atravessar a Suiça, e a Suiça não faz parte da União Europeia, ele precisaria ficar com os passaportes para a eventualidade de as autoridades suiças quererem verifica-los. Caso contrário ele teria de nos acordar no meio da noite, atrasando o processo de fiscalização. Como os vizinhos também haviam entregues seus passaportes (eles são de Cotia, na Grande São Paulo), resolvi não objetar.

O chefe do vagão nos deu tickets para Welcome Drinks, para o Café da Manhã do dia seguinte (incluso no bilhete) e disse que o Vagão Restaurante estava aberto para jantar.

Resolvemos ir até o restaurante beber o nosso Welcome Drink (champagne) e comer algo. O chefe do vagão teve de trancar a cabine da gente por fora, porque nenhum passageiro recebe  uma chave externa de sua cabine, que lhe permita tranca-la por fora.

No vagão restaurante, mais uma vez, tudo bagunçado, Italian style (sorry, italianos). A garçonete não sabia quais eram os ingredientes dos pratos, tinha de voltar e perguntar, etc. Gente passando com mala, que aparentemente entrou no trem, na última hora, no vagão errado, e tinha de localizar seu assento ou sua cabine. Escolhemos um peito de frango com molho e purê de batatas. Prato mais caro do menu: 16 Euros. Quando os pratos chegaram, vieram com arroz e não purê de batatas, sem aviso ou explicação. Pedi uma Heineken e atacamos a comida. Pelo menos o gosto estava muito bom. Talvez fosse a fome.

Voltamos para a cabine. Ninguém pelo corredor, e nada do chefe de vagão… Procurei nos vagões anexos e nada. Por fim vimos um compartimento meio triangular, no fim de nosso vagão, e dei uma batidinha na porta. Era lá que ele se escondia. Pedimos para abrir nossa porta e ele o fez. Surprise! O quarto estava todo arrumado: as camas de baixo e do meio estavam montadas e arrumadas, com lençol de embutir justinho, acolchoado, travesseiros, tudo nos trinques. E o aquecimento estava funcionando. A aparência da cabine se alterou e o nosso mood também.

Na cabine há um lavatório, escondido atrás de umas portinhas arredondadas, um espelho relativamente grande, três ganchos com cabides para pendurar roupas, dois maleiros, e espaço para uma terceira cama, que pode ser aberta lá em cima, quase no teto da cabine… (Por isso nossos vizinhos estão os três numa só cabine). Há controles de temperatura (ar refrigerado e quente), tomadas, interruptores para luz de teto e luz de penumbra, luz de leitura para cada cama, local para colocar copo ou garrafa em cada cama, etc. Descrevendo isso até parece que a coisa é chique. Não é: tudo é velho, mas aparentemente ainda em estado aceitável de funcionamento.

Como eu já disse, a Paloma escolheu dormir em cima. Tirei uma foto dela sentada (quase disse empoleirada, mas felizmente me contive…) na cama de cima e ela tirou uma foto minha deitado na cama de baixo. Quando vi a foto que ela tirou de mim achei que eu estava parecendo um defunto no caixão e pedi para ela tirar outra foto, comigo deitado de lado. Ficou bem melhor. Pelo menos pareço vivo — só dormindo (embora stivesse apenas fazendo de conta).

A Paloma foi ao banheiro (eu havia ido na volta do carro restaurante). Depois, trancamos a cabine por dentro, tiramos o excesso de roupa, e resolvemos dormir. Eu dormi logo. Acredito que ela também.

Na realidade, voltando ao presente, a Paloma acabou de acordar agora, quase 5h30 da manhã. Conversamos um pouco, mas acho que ela voltou a dormir.

Reconheço que este relato está extremamente detalhado e longo — já está na página sete. E terei de dar à Paloma o direito de censura, antes de publica-lo, o que acontecerá, possivelmente, apenas hoje à noite, quando estivermos de volta a Genebra, pois, diferentemente dos trens austríacos, nada de WiFi aqui.

É isso. Ainda temos pelo menos quatro horas de viagem, se não houver atraso. Suspeito que haverá um atraso, talvez até considerável.

Vou ver se cochilo mais um pouco… Inté.

[Paloma: Imprimatur até aqui. 8h30 da manhã do dia 17/1/2013].

9h30 da manhã. Deveríamos estar chegando agora, mas parece que estamos muito atrasados. Perguntei ao chefe do vagão se tínhamos atraso e ele disse, com má vontade, que achava que uns vinte minutos.

Já tomamos café (chocolate, suco de laranja, croissant e apple sauce). Básico. Foi gentileza do trem.

A Paloma, que estava conversando com os vizinhos, disse que a próxima estação já é Veneza (Santa Lúcia).

Os vizinhos também disseram que, lá pelas 4h da manhã, o trem ficou parado uns 40 minutos, e um policial com cão farejador entrou na cabine deles, revirou tudo, o cachorro cheirou tudo, conferiu os passaportes com a cara deles e com os bilhetes, etc. Achei estranho, porque conosco nem bateram na porta.

Mas me lembrei de que às cinco horas, mais ou menos, quando fui ao banheiro, encontrei um policial italiano, mas foi simpático, apenas sorriu e passou.

Voltando a ontem, uma coisa que nos assustou em Paris, ontem, na estação, foi a presença de vários militares ostensivamente armados com metralhadoras, prontos para atirar. Esquisitíssimo.

Parando. Desta vez concluindo o post.

No trem de Paris a Veneza, 17 de Janeiro de 2013

Eduardo Chaves

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