Vigésimo segundo dia: Mochileiros

Estamos, praticamente, na última etapa da nossa viagem. Nossa programação para esses últimos dias foi, talvez, a mais emocionante… Colocamos a mochila nas costas e saímos pela Europa em uma grande aventura de quase cinqüenta horas.

É verdade que somos uns mochileiros, digamos, meios sofisticados, pois só temos viajado em vagões de primeira classe (graças ao nosso passe Eurail), na maioria das vezes com assentos reservados, e dormimos em cabine dormitório exclusiva para duas pessoas no trem noturno… Mas, que viajamos apenas com duas mochilas nas costas, isso também é verdade!

Passamos por três países nesse período de cinqüenta horas: Suíça (de onde saímos), França e Itália.

Pela França, exploramos, pela segunda vez juntos, Paris. O Edu escreveu um artigo bastante detalhado dessa parte da viagem, por isso não me aterei a ele…

Saímos de lá ontem à noite e pegamos um trem noturno até Veneza, de onde estamos saindo agora, rumo a Genebra, novamente.

Incluímos Veneza em nosso roteiro meio de última hora. Teríamos uma semana inteira em Genebra, e eu queria aproveitar para conhecer mais algum um país. A Itália era o mais próximo, dentre os que eu ainda não conhecia.

Queria, ainda aproveitar o passe de trem e o fato de termos um local em Genebra onde poderíamos deixar nossas malas, afinal pegar trem carregados de malas é mais complicado.

Se eu fosse viajar só para a Itália, talvez não escolhesse Veneza como destino, mas sim, a Toscana, e no verão… (Isso é uma dica para o Edu sobre o próximo plano de viagem…) Mas, considerando que teríamos apenas algumas horas para explorar uma cidade italiana, considerei Veneza mais interessante do que Milão ou Florença, que foram as duas alternativas consideradas.

Primeiro porque Veneza é uma cidade bem menor do que as outras duas. Segundo porque desde criança eu ouço falar de Veneza, e acabei criando uma fantasia a respeito dela…

Os filmes e desenhos animados sempre mostram uma Veneza romântica, charmosa, com as gôndolas passeando pelos diversos canais (aliás, preciso registrar que sempre me lembro da propaganda do sorvete Corneto quando penso em Veneza…).

É verdade que depois de adulta ouvi algumas referências, digamos, não tão positivas acerca de Veneza. Essas referências falavam de uma cidade suja, velha e cheia de ratos… 😦

Felizmente minha veia romântica falou mais alto, e eu mantive uma expectativa positiva em relação a essa cidade que hoje tive a feliz oportunidade de conhecer…

Posso dizer, após passar algumas horas nela, que, talvez, haja um pouco de verdade em tudo o que eu ouvi falar previamente sobre a cidade…

A primeira impressão que tivemos, logo que chegamos, foi meio estranha. A estação principal de trem (Veneza Santa Lucia), está em obras. O dia estava meio cinzento. O chão da estação estava sujo e meio úmido. Não havia um saguão, um posto de informações da estação de trem, enfim, uma estrutura turística comparável à das outras cidades por onde passamos.

Deixamos nossas mochilas em um local próprio na estação, e já ficamos meio decepcionados com o preço (o dobro da Gare de Lyon, em Paris) e a qualidade, muito inferior à nossa referência anterior.

Havia um posto de informações turísticas onde fomos pedir informações sobre transporte para a Piazza San Marco. A atendente nos entregou uma folha “xerocada”, com algumas informações básicas e com um mapinha sem vergonha da ilha principal. Perguntamos se ela tinha um mapa melhor, como o que estava grudado no balcão dela, e ela disse que tinha para vender, por 2,50 Euros. Em nenhuma cidade precisamos comprar mapas durante toda a viagem. Sendo cidades turísticas, o mínimo que elas oferecem, patrocinadas pelos comerciantes locais, são mapas para os turistas escolherem onde vão gastar seu dinheiro. Mas não foi assim em Veneza…

Compramos um bilhete de ônibus (ônibus-barco, no caso), para chegarmos rapidamente à praça central. Depois exploraríamos a cidade a pé… Pensamos que o ônibus andaria pelo Gran Canal, onde poderíamos ter uma visão geral da cidade. Entretanto, o bendito fez a rota pelo lado contrário, passando por fora, pelo lado mais industrial da cidade. Passamos um frio de doer tentando fotografar tudo o que pudéssemos, e nos deparamos com uma paisagem meio sem graça, com apenas um ou outro prédio interessante… 😦

Enfim chegamos à estação San Marco. Não tínhamos muita certeza de como era a praça. Então, achamos que não estávamos nela… Na verdade a praça é dividida em duas partes, uma menor e outra maior, ambas conectadas, em L. Estávamos na parte menor, e por isso não percebemos. Vimos uma igreja em reforma ao final dessa praça menor, e havia uma fileira do que pareciam ser mesas baixinhas, algumas empilhadas, em frente a ela, mas pensamos que aquela era uma igreja muito pequena para ser a famosa Basílica de San Marco, toda revestida em ouro.

Relutamos um pouco em ir na direção dela, preferindo entrar em um prédio lateral bonito, no final do qual havia tapumes de obras (as cidades europeias, de um modo geral, estão sempre em obras nessa época do ano…). De repente percebemos certa movimentação de pessoas ao lado do prédio, atrás dos tapumes, em frente à tal igreja. Resolvemos ir até lá e, aí sim, percebemos que aquela era mesmo a Piazza San Marco, e aquela era a basílica.

A igreja, de fato, não é tão grande, tão alta, mas é muito diferente, enfeitada. As supostas mesinhas empilhadas, que pareciam restos de algum evento ou feirinha, para a nossa surpresa, eram passarelas improvisadas (que hoje estavam fora de uso), para os dias em que a praça fica inundada. Fiquei impressionada com as fotos que vimos nos tapumes das obras de contenção da água que eles estão fazendo em toda parte. Já tinha ouvido falar vagamente que Veneza estava correndo o risco de ficar debaixo d’água com o aumento do nível do mar Adriático. Constatei, chocada, que é verdade…

Freqüentemente, especialmente nessa época do ano, não apenas a praça, mas diversos pontos da cidade ficam alagados. Alguns imóveis já perderam os cômodos mais baixos. Tivemos a oportunidade de tirar algumas fotos de pontos alagados. Muito triste…

Mas, enfim, começamos a andar pelas ruazinhas do entorno da praça para procurar um Café. Àquela altura eu precisava tomar um chocolate quente urgentemente para voltar a me expressar oralmente… Minha boca queria falar, mas os músculos faciais estavam tão rijos com o frio, que não conseguiam mais se articular. Minha boca não me obedecia!

Tão logo começamos a fuçar essas vielinhas, eu comecei a me encantar com a cidade… Em cada bequinho, em cada pontezinha, uma surpresa… Uma lojinha, um restaurantezinho, uma casinha, um jardinzinho… Entre um bequinho e outro, os minúsculos canais escondiam barquinhas e as famosas gôndolas venezianas.

Infelizmente eu não tive coragem de andar em nenhuma delas, pois meia hora de passeio nos custaria a “bagatela” de 100 Euros! Quase 10 Reais por minuto foi muito para o meu bom senso. Me contentei em fotografar as gôndolas e passear a pé por entre as vielas e os canais… Tudo muito lindo!

Os prédios realmente são muito velhos… Não são apenas antigos, são velhos, mesmo, mal conservados, caindo aos pedaços. Mas, por incrível que pareça, isso acrescenta um charme adicional à paisagem. Não sei explicar direito. Só vendo para entender…

Em alguns momentos, a paisagem chega a ser parecida com algumas vielas de Paraisópolis. A diferença é que em Veneza o reboque dos prédios caiu. Em Paraisópolis ele nem chegou a ser feito…

As roupas penduradas nos varais remetem à paisagem do centro velho de Portugal. Mas o conjunto da obra é um charme. Foi a cidade europeia por onde passamos, onde eu mais tirei fotos! Dá vontade de registrar cada pedacinho dela.

Passamos em uma feira muitíssimo parecida com as nossas feiras livres de São Paulo. Ficamos pensando, será que as nossas feiras são herança italiana? Parecem…

Aliás, em vários momentos vi similaridade entre Veneza e São Paulo, especialmente na alimentação farta, a forma meio barulhenta, bem humorada, às vezes meio espalhafatosa das pessoas. Isso sem contar a desorganização do espaço, algumas pichações em monumentos importantes, enfim, acho que temos mesmo muito dos italianos em São Paulo…

Outra característica positiva, conforme eu acabei de mencionar, é que se come muito bem em Veneza. Eu havia lido em algum Blog que a comida lá era muito cara. Não que seja barato, mas, se comparado a Genebra, Paris, Budapeste e Praga, sem dúvida é um lugar onde não se gasta tanto para comer. E há fartura e sabor na comida. Nem é preciso dizer que há muita massa lá, de todos os tipos…

As lojinhas de souvenirs também são das mais baratinhas, se compararmos com as outras cidades por onde andamos. Há lembrancinhas a partir 60 ou 70 centavos de Euro. Pena que estávamos com pouco espaço nas mochilas pequenas, senão eu teria trazido umas tralhas para dar de presente aos amigos… (Amigas, na verdade… Os amigos, por alguma razão, não costumam gostar muito de tralhas…)

Entramos na basílica, mas não pudemos fotografar. Ela é realmente toda revestida de ouro. É muito diferente, colorida, possui uma organização interna diferente da maioria. Não é tão grande, mas tem seu charme, apesar de eu não gostar muito da ostentação dessas igrejas, especialmente das que são revestidas de ouro…

[PC, em 18/1/2013: Transcrevo, aqui, por sua relevância, um trecho do comentário feito no Facebook, por minha amiga Simone Segala, que também esteve na Basílica de San Marco, e trouxe informações muito mais precisas, que, inclusive, corrigem informações errôneas que eu havia passado sobre a igreja:  “… Só um detalhe que me fez gostar muito da Basílica de Sao Marcos é que ela não é revestida de ouro, mas,toda feita em mosaico dourado, desde o teto até o chão. Não sei se vocês perceberam, mas o chão está todo ondulado, devido as enchentes e por ser todo em mosaico, ficou mais fragilizado. Achei essa arquitetura muito bacana e foi herança das influências muçulmanas, por isso não tem aspecto de igreja católica e é ornamentada em mosaico”]

Enfim, foi um dia maravilhoso! E eu não vi nenhum rato, felizmente…

Nossa viagem está chegando ao fim… Fico muito feliz por estarmos fechando esse ciclo com essa experiência bacana de passear como mochileiros pela Europa.

Agora estamos a uma hora de chegar em Genebra. Sao 22h20 (19h20 no Brasil), e o Edu está cochilando confortavelmente no banco ao lado.

Espero conseguir publicar esse artigo, junto com o outro, sobre o passeio aos Alpes suíços, ainda hoje.

Passando por Montreux, no trem a caminho de Genebra, 17 de Janeiro, de 2013.

Paloma Chaves

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Sobre Paloma Chaves

Doutoranda em Educação pela USP, Mestre em Educação: Currículo pela PUC-SP, Pedagoga, Professora do curso de Licenciatura no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP – Campus Capivari), Google Innovator, certificada no programa Google Teacher Academy (GTA-SP), consultora especialista no uso pedagógico da tecnologia e em avaliação de competências. Reside em Salto - SP e é casada com Eduardo Chaves.
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4 respostas para Vigésimo segundo dia: Mochileiros

  1. Sou fã seu, querida. Gosto muito de ler o que você escreve.

    • Paloma Chaves disse:

      Você é um lindo… ❤
      Obrigada pelo seu incentivo sempre presente… Ele fez toda a diferença em minha dissertação de mestrado, apesar de se tratar de um gênero completamente diferente de texto… 🙂

  2. joselia lima disse:

    sou sua fã !!! e amo seus posts …

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