Vigésimo primeiro dia: Viagem para Paris no TGV Leiria

6h24 da manhã do dia 16/1/2013, e o trem TGV com destino a Paris, Gare de Lyon, acaba de partir de Lausanne. Chegamos a Lausanne às 6h12, procedentes de Genebra, de onde saímos às 5h33. Saímos do nosso apartamento às 5h, para andar os três quarteirões que nos levavam à estação de trem (Gare Cornavin). Noite escura. Não havia viva alma na rua, exceto dois taxistas e um sujeito parado com uma cara meio suspeita, perto do hotel. Como bons brasileiros, ficamos espertos, atravessamos à rua e monitoramos o cara que estava parado… Mas nada de mais aconteceu.  Não encontramos mais ninguém, nem a pé, nem de carro, até entrar na estação.

Bom, felizmente tudo deu certo e estamos no TGV, que, tendo saído de Lausanne às 6h24, deve chegar a Paris às 10h03, quase 3h40 depois.

Há um TGV que sai de Genebra para Paris, via Lyon, e que leva basicamente 3h. Mas não havia lugar de primeira classe nele. Optamos, portanto, para ir até Lausanne, que fica mais distante de Paris do que Genebra, e pegar o TGV de lá, que segue uma outra rota e leva quase 40 minutos mais de tempo — e que é chamado de TGV Leiria.

A última vez em que estivemos em Paris, a Paloma e eu, foi no final de 2008, comecinho de 2009. Passamos em Paris nosso primeiro réveillon juntos, ao redor da Tour Eiffel. Chegamos logo depois do Natal e ficamos até o dia primeiro do ano, quando nos dirigimos (também por TGV) a Zurique e, de lá, a Winterthur, terra dos antepassados da Paloma pelo lado materno: os avós da mãe dela, tanto o avô como a avó, vieram da Suiça. Daí o sobrenome “Epprecht”.

Naquela ocasião não subimos até o alto da Tour Eiffel. Desta vez queremos faze-lo. Esse é o único plano que temos para nossa estada de mais ou menos oito horas na cidade — exceto, evidentemente, no que diz respeito às andanças pelas “lojinhas”, especialmente as Galeries Lafayette (que não são propriamente uma lojinha).

Acabaram de servir um desjejum (pétit déjeuner) composto de croissant, pão normal (o que na minha infância se chamava de “pão de água”, por alguma razão que desconheço, e que se contrapunha ao chamado “pão sovado”), manteiga, geléia, iogurte, café com leite e suco de laranja. É uma cortesia da primeira classe (tipo cortesia, como disse a Paloma: a reserva de assentos nos trens normais, em geral opcional, exceto nos trens noturnos de longo percurso, custa 4 Francos Suíços, e aqui no TGV, em que é obrigatória, custa 33 Francos Suíços – sempre por pessoa). A “trilhomoça” usa um carrinho semelhante ao que as “aeromoças” usam nos aviões… (sei que minha terminologia aqui está ultrapassada, mas fica assim mesmo).

O trem não parece estar andando tão depressa como de fato está. E, em alguns aspectos, é menos sofisticado do que o RailJet austríaco que usamos de Linz a Budapest, de Budapest a Salzburg e de Salzburg a Zürich. O RailJet tem (como os aviões) monitores que indicam no mapa o trajeto que está sendo percorrido, que mostram a velocidade, e dão outras informações (sobre paradas, horário previsto de chegada, etc.). E tem a Internet a bordo, gratuita, em todo o trajeto (embora, na nossa experiência, meio instável).

Agora o trem parou, sem nenhuma explicação… A Paloma e eu somos meio traumatizados com isso. Como já disse em um post anterior, quando fomos de Paris a Zürich, o nosso TGV atropelou e matou uma pessoa, cerca de dez minutos depois da saída da estação, ainda dentro do perímetro urbano de Paris. Ficamos parados três horas, esperando a polícia chegar, examinar a cena, cumprir toda a burocracia prevista para caso de acidentes com vítimas, no caso fatais. Mas o nosso TGV aqui voltou a andar, mas terá de tentar descontar um bom atraso.

A Paloma está escrevendo, no iPad dela, um post sobre nossa viagem ao Jungfrau, que ela havia prometido escrever (ou, como ela reclamou, que eu havia prometido que ela escreveria…) Não sei como ela consegue escrever tão rapidamente no iPad (e no iPhone). Acho que é uma questão geracional. Embora ela não possa ser considerada uma nativa digital, nasceu mais perto do início da popularização da tecnologia digital do que eu, que nasci definitivamente antes da era digital… A Bianca e a Priscilla, estas sim, são nativas digitais. Não usam e-mail, por exemplo, que a Paloma ainda usa intensamente. Só usam mensagens de texto e chamadas de voz. E procuram tudo no Google, pelo telefone. É interessante observar a convivência de três gerações bem distintas: uma pré-digital (pré-ENIAC, pré-computador de grande porte), mas que tentou se digitalizar o melhor possível; a outra que nasceu às vésperas da explosão digital que aconteceu com o aparecimento dos microcomputadores; e a terceira, que nasceu quando começou a utilização dos telefones celulares, primeiro analógicos, depois digitais… Na verdade, foi quando os celulares se tornaram plenamente digitais e “smart”, que essa geração chegou na idade de utiliza-los.

Vou parar de escrever para voltar a ler meu livrinho: Les Intellectuels Faussaires.

(O corretor ortográfico da Apple não gosta de diminutivos: acusa erros em palavras como lojinha, livrinho, etc.).

Até depois.

Estou de volta. São 8h50. O trem agora está correndo bastante — mas vai chegar atrasado. Aparentemente um trem (um outro TGV) à frente de nós teve problemas e bloqueou a linha, nos obrigando a ficar parados por um tempo, que não sei qual foi, porque cochilamos, tanto eu como a Paloma. Mas agora a sensação é de que estamos andando realmente depressa. Mas parece que não será possível tirar todo o atraso. Acho que é nossa sina andar em TGVs que atrasam por causas diversas…

Paramos em Dijon, agora, e o TGV ficou totalmente lotado — pelo menos aqui no nosso vagão. Imagino que nos outros também. Estamos sentados num daqueles bancos de frente um para o outro, com uma mesinha no meio.

Fomos informados de que estamos com um atraso de 50 minutos!!! Pelo jeito dormi mais do que imaginei… Vamos ter menos tempo do que planejávamos em Paris. Ainda bem que a nossa conexão não é apertada, como a dos caras de dois bancos atrás de nós, que estão reclamando com o chefe do trem porque vão perder uma conexão importante.

A previsão do tempo dizia que o dia seria bom em Paris hoje, que até mesmo haveria sol, mas até agora (9h25) o dia está escuro. Mas, pelo jeito, ainda estamos há uma hora e quarenta e cinco minutos de Paris, e o sol pode aparecer até chegarmos à Cidade Luz. (Na verdade, não sei porque Paris tem esse apelido: New York me parece mais “luzificada” do que ela).

No trem há um ícone que indica que celulares devem ser mantidos silenciosos… Mas talvez o ícone queira dizer apenas que devam ficar em modo vibracall, porque já vi pessoas falando ao celular, embora poucas.

Voltando ao meu livrinho, na passagem que li o autor estava discutindo o conceito de intelectual. Conta uma historinha de que, quando François Mitterand assumiu o governo francês e decidiu visitar Mme. Thatcher, indicou que, enquanto estivesse na Inglaterra, gostaria de manter contatos com intelectuais ingleses. Diz a história que recebeu, do protocolo inglês, uma resposta que informava que poderia marcar uma reunião dele com filósofos, escritores, cientistas, até mesmo artistas, mas que não sabia quem (além desses) poderiai ser considerado um intelectual.

Segundo o autor, na França, um intelectual seria qualquer um desses que, entretanto, não se mantivesse preso aos limites de sua atividade profissional de filósofo, escritor, cientista, etc., mas se envolvesse nos grandes debates da época. Voltaire teria sido, além de filósofo, um intelectual, por ter se engajado em várias causas, como, por exemplo, a da tolerância religiosa para com os não-católicos. Envolveu-se decididamente no chamado “affaire Callas”, em que um huguenote (protestante) havia sido acusado de matar seu filho. Voltaire assumiu sua causa, mostrando que estava sendo acusado apenas por ser protestante, e, oportunamente, conseguiu que a acusação fosse removida. Zola também foi um intelectual nesse sentido, ao defender o judeu Dreyfus, no famoso “affaire Dreyfus”.

Mas, segundo Pascal Boniface, o autor do livro, o conceito de intelectual foi gradualmente expandindo o seu sentido. Há um momento, que gira por volta do auge da atuação política de Sartre, em que, em grande medida em decorrência dos paradigmas fornecidos por Voltaire e por Zola, não basta mais que um filósofo, escritor, cientista, etc., para jazer jus ao título, agora honorífico de intelectual, apenas se envolva nos grandes debates de sua época: é necessário que o faça “do lado certo”, esse lado sendo definido como o lado dos “sem voz” e, em parte por isso, “sem poder”. Dessa forma, para fazer parte da “claque” dos intelectuais, é preciso que o filósofo, escritor, cientista, etc. dê a esses destituídos de voz e poder um pouco de sua voz, conseguindo que eles, assim, vicariamente, se reconheçam na voz do intelectual e compartilhem um pouco do poder que eles possuem e que é decorrente da sua notoriedade.

Com isso o conceito de intelectual de certo modo se esquerdizou… Sartre passa a ser um filósofo e um intelectual, mas Aron continua sendo apenas um filósofo… “On disait autrefois quíl valait mieux se tromper avec Sartre qu’avoir raison avec Aron” (p.20). Não porque Aron não tenha participado dos grandes debates nacionais e mesmo mundiais da época que ele compartilhou com Sartre, desde a escola, mas porque Aron pendeu para o Liberalismo e, assim, segundo a esquerda, para a direita…

É nesse contexto que entra a temática que Boniface privilegia, a dos falsários. O intelectual, por defender uma causa que considerava justa, a dos sem voz e sem poder, começou a se julgar no direito de negar fatos inconvenientes (como, primeiro, a barbaridade do estalinismo, com seus assassinatos, seus gulags, etc., e, depois, a brutalidade injustificável da invasão soviética primeiro na Hungria, depois na então Tchecoslováquia). Também adquiriu o hábito  de inventar fatos inexistentes mas que colocariam seus heróis em boa luz, e de propaga-los como fatos reais. Além disso, não recuava diante do uso de argumentos falaciosos mas cuja falácia era difícil de detectar — tudo isso com consciência, intencionalmente, na crença de que os fins justificam os meios.

A temática dos mercenários intelectuais é relacionada. Estes, como já disse, não precisam acreditar numa causa: eles apenas assumem uma causa que lhes prometa trazer benefícios e passam a defende-la publicamente, sem nenhum escrúpulo de recorrer à falsidade, à meia-verdade, à contraverdade, como se elas fossem a verdade mais evidente e cristalina…

Um respiro… O sol apareceu, como a meteorologia havia previsto, e agora brilha, bonito no céu francês “de la campagne”, de “la France profonde”, enquanto nos dirigimos para “la cité” — não ouso dizer “la France superficielle”…

Ao entrar no TGV pudemos escolher um jornal. Escolhi o International Herald Tribune para poder ler com mais tranquilidade em Inglês… Dois artigos me chamaram a atenção. Um sobre a Educação a Distância Colaborativa no Ensino Superior. O outro sobre os pontos positivos da tão criticada Procrastinação. Vou levar o jornal para me referir a esses artigos posteriormente.

Agora o sol ficou do nosso lado e a sua luz chega a incomodar… Quem diria?

Já passou da hora em que deveríamos ter chegado a Paris: são 10h10, hora local. O trem anda rápido de novo. Há pouco o chefe do trem anunciou que o atraso havia sido reduzido para quarenta minutos. Quem sabe ele vai nos surpreender ao final e anunciar que foi reduzido para apenas trinta minutos? Ou quem sabe vinte? O trem está voando mesmo. Creio que dentro de uma meia hora estaremos parando na Gare de Lyon. É também de lá que sairemos hoje à noite para Veneza. Quem sabe achamos um depósito de volumes lá para não precisarmos carregar nossas mochilas nas costas pela cidade — embora elas estejam leves (em relação ao seu absurdo peso normal).

Enquanto a Paloma dormia dei uma lida no post dela sobre nossa viagem a Jungfraujoch. Está muito lindo. Ela agora está ativamente envolvida na continuação dele.

Fico aqui.

No TGV de Lausanne a Paris, 16 de Janeiro de 2013

Eduardo Chaves

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Sobre Eduardo Chaves

[English] Eduardo Chaves is responsible for this blog. Eduardo Chaves is a writer, lecturer and consultant (private companies, NGOs, schools), and was a professor of philosophy during 45 years, before retiring from the University. Of these 45 years 70% were spent as Professor of Philosophy and History of Education at the University of Campinas (UNICAMP), in Campinas, SP, Brazil, where he worked in the Department of Philosophy and History of Education of the School of Education. His activity as a lecturer and consultant are the interactions between Change, Innovation, and Technology, in special in the area of Education. As a writer, he has been quite active in this over than 30 blogs since 2004. His writing covers the areas of Philosophy, Theology, Education and Politics (especially from the view point of Classical “Laissez-Faire” Liberalism). Secondarily, his blogs also discuss other areas, such as literature, cinema, and, more rarely, the other arts. He also writes on Epistemology and the Philosophy of Science. He was born on the 7th of September of 1943, is married, and has four daughters. He presently lives in a farm in the rural area of Salto, SP, Brasil, with his wife and professional partner Paloma Epprecht e Machado de Campos Chaves, Professor of Education in the Teacher Certification Program of the Federal Institute of Education, Science and Technology in the State of São Paulo (IFSP), Capivari campus. E-mail: eduardo@chaves.pro Portal de Blogs: https://chaves.space/ Fone: +55 (11) 97984-0000 Impressum: Blog published under the responsibility of: Eduardo O E M C Chaves (Ph.D., M.Div., B.D.) E-Mail: eduardo@chaves.pro E-mail: eduardo@chaves.space E-mail: ec@educhv.com E-mail: chaves@liberal.academy Site: https://chaves.space [Português] Eduardo Chaves é o responsável por este blog. Eduardo Chaves é escritor, palestrante e consultor (empresas, ONGs, escolas), tendo sido professor universitário por 45 anos (função da qual está hoje parcialmente aposentado). Desses 45 anos, mais de 70% foram passados como professor de Filosofia da Educação na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em Campinas, onde por 26 anos foi Professor Titular dessa matéria no Departamento de Filosofia e História da Educação (DEFHE) da Faculdade de Educação (FE). A especialidade em que atua como palestrante e consultor são as interações existentes hoje entre Mudança, Inovação e Tecnologia, em especial na área da Educação. Como escritor, atua principalmente em seus blogs, que cobrem principalmente Filosofia, Teologia, Educação e Política (em especial do ponto de vista Liberalismo Clássico). Secundariamente, seus blogs também discutem outras áreas, como a literatura, o cinema, e, mais raramente, as demais artes. Ele também escreve sobre Epistemologia e Filosofia da Ciência. Ele nasceu em 7 de Setembro de 1943, é casado, e tem quatro filhas. Reside atualmente na zona rural em Salto, SP, Brasil, com sua mulher e parceira profissional, coproprietária deste blog, Paloma Epprecht e Machado de Campos Chaves, professora de educação nas licenciaturas do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), câmpus de Capivari. E-mail: eduardo@chaves.pro Portal de Blogs: https://chaves.space/ Fone: +55 (11) 97984-0000 Impressum: Blog publicado sob a responsabilidade e editoria de: Eduardo O E M C Chaves (Ph.D., M.Div., B.D.) E-Mail: eduardo@chaves.pro E-mail: eduardo@chaves.space E-mail: ec@educhv.com E-mail: chaves@liberal.academy Site: https://chaves.space
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